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Jul 17

Quando da minha participação na 38º Corrida da Fogueiras, e, em plena prova dei comigo a pensar no seguinte:

- Que, em quase todas localidades portuguesas existe uma ou mais lendas que as ligam à sua existência.

Relacionada com a Cidade de Peniche encontrei a Lenda do Senhor de Branco, que liga Peniche à Dinamarca.

Retirada do Livro Lendas de Portugal de Gentil Marques.

 Por alturas do século V da nossa era cristã, o povo da ilha de Peniche vivia em cabanas e dedicava-se à pesca. Era alegre, hospitaleiro e laborioso. A família, bem constituída, agrupava-se sob a suave direcção dos mais velhos, movidos pelo mais recto espírito de justiça. Não tinham ambições, nem receavam ninguém. O mar, embora furioso por vezes, dava-lhes o suficiente para viverem, como tesouro inesgotável.

Um dia, ainda muito cedo, algumas lanchas haviam saído para o mar. A luz era fraca. Mas um dos homens apontou aos outros o que acabava de descobrir. Aproximava-se a toda a vela um navio estranho, com velame complicado, diferente de quantos tinham visto. O primeiro movimento entre os pescadores foi de espanto. Depois começaram a recear, pois o navio dirigia-se para o seu pequeno e difícil porto. Perguntavam ansiosos: «Quem seriam os seus tripulantes? Donde viriam? Que desejariam da sua terra?» Alguns mais afoitos gritaram para bordo que seguissem viagem sem aportar. Mas os do navio não fizeram caso ou não os compreenderam e aportaram mesmo.

Amedrontados, os pescadores não tiveram coragem de continuar a faina. Remaram para terra com quanta força tinham, para observar o que iria acontecer. O navio ficou a certa distância da terra e dele desceram, em pequenos botes, uns homens enormes, de ombros largos, loiros e fortes. Embasbacados, os pescadores descobriram que esses mesmos gigantes loiros fizeram descer para um dos botes uma dama, loira também, envolta em véus espessos que não deixavam ver o seu rosto. Rodeavam-na de atenciosos cuidados. Depois, fizeram-se a terra, seguidos pelas embarcações dos pescadores. Em terra, os homens loiros ajudaram a dama a descer. Depois esperaram que os pescadores chegassem também a terra. Frente a frente, os homens olharam-se. Não havia na expressão deles rancor ou ódio. Os loiros sorriam. Os pescadores aguardavam. Por fim um dos homens agigantados falou em espanhol:

— Amigos, precisamos da vossa ajuda. Um dos pescadores mais velhos perguntou:

— Donde vêm?

O outro respondeu:

— Vimos do norte e precisamos de um porto amigo. Saberemos recompensar-vos. Poderemos armar aqui as nossas tendas?

O pescador respondeu:

— Fiquem, se vêm por bem. É essa a vossa linguagem?

— Não. Falamos uma língua que não entendeis. Eu e a dama que trazemos falamos castelhano. Haverá aqui alguma mulher que saiba cuidar de uma doente?

— Eu tratarei disso.

O gigante loiro agradeceu e logo começaram a levantar tendas, a acomodar os seus cofres e armas de guerra. E em poucos dias reinava entre todos uma franca e sincera fraternidade.

A dama loira, de uma beleza fascinante, de modos gentis e olhar doce, esperava um filho. Mas devia estar muito fraca, pois quase não falava e dos seus olhos de vez em quando corriam lágrimas.

As mulheres mais hábeis ficaram ao serviço da Bela Senhora, como lhe chamavam os da ilha. Cada dia mais triste e mais pálida, ela sorria, sem forças para agradecer melhor todos os cuidados de que era alvo. E as mulheres dos pescadores já a amavam como se fosse a sua rainha.

Uma noite, pouco tempo depois de terem aportado à ilha, a dama deu à luz um menino. Porém, não era como aqueles que as mulheres de Peniche estavam habituadas a ver nascer. Era grande, muito branco e rosado, cabelo de um loiro desmaiado, olhos de um azul vivo como reflexos do mar!

Ao ver o menino, a dama soluçou. Primeiro com angústia, depois com serenidade, por último com alegria. Porém, os seus servidores — pois todos a tratavam com deferência — lançaram gritos de vitória. Contagiados, os pescadores de Peniche associaram-se ao júbilo extraordinário dos estrangeiros e cantaram e bailaram com eles.

O dia estava belo. O sol queimava os corpos, dando um tom rubro à pele branca dos estrangeiros. E quando a tarde começou a cair, ainda se bailava e cantava. Porém, dentro da cabana, o menino dormia. Olhando-o com ternura, a dama loira chorava ainda em silêncio. Apiedada por essa dor secreta, a mulher que dela cuidava começou a chorar também. A dama notou o facto. Suspirou fundo. Estendeu-lhe uma das mãos que a mulher de Peniche apertou nas suas. E então, a dama falou. A sua voz era pausada, de timbre admirável.

— Vou contar-te a minha história. Queres ou não conhecê-la?

A mulher foi sincera:

— Senhora... Há muito que desejava saber porque choras tanto!

Sorriu a dama entre lágrimas e começou:

— Vim de muito longe... De um país do norte chamado Dinamarca.

— E como é esse país?

— Diferente do teu. Lá, o Sol não brilha como aqui. É um país de luz triste, de povo guerreiro e cruel.

— Fizeram-te mal?

— Ouve o que te digo. Meu pai, que é o rei da Dinamarca, deu-me em casamento a um príncipe de outra nação vizinha.

— E não gostavas dele?

— Não!

— Porquê? Era feio ou velho?

— Nem velho nem feio. Mas é um homem brutal, muito mau. A sua maior alegria é passear, amarradas à sela do seu cavalo, as cabeças dos seus inimigos e beber em seus crânios esvaziados o hidromel da vitória!

A dama calou-se, cansada. Alina, a mulher que a escutava, levou uma das mãos à cabeça em sinal de protesto.

— Claro que não podias casar com esse príncipe cruel!

A dama continuou:

— Mas não era só isso.

— Que mais havia?

— Eu amava outro homem!

— E como era ele?

— Jovem, belo, generoso e valente!

A dama tornou a calar-se olhando um ponto vago no espaço. Curiosa, a sua interlocutora indagou:

— Então porque não te deixaram casar com ele?

A dama despertou dum sonho e respondeu com tristeza:

— Meu pai não quis!

— Porquê? Não era de sangue real?

— Não... mas pertencia a outra estirpe muito superior, porque era cristão. Não admitia a vingança e bebia o vinho em vasos de prata, com o coração tranquilo e limpo de maldade.

— Não falaste ao rei teu pai, pedindo que te atendesse?

A dama loira suspirou fundo.

— Falei. Amava tanto o meu senhor! O senhor do meu coração... da minha vontade! Disse-lhe que sem ele seria um corpo sem alma!

— E que fez teu pai?

A dama calou-se mais uma vez. Talvez cansada, talvez embargada pela emoção. A mulher que a ouvia respeitou esse silêncio. Compreendia o drama que envolvia essa pobre mulher, tão bela e tão meiga. Ao cabo de uns momentos, a dama prosseguiu a sua narrativa.

— Sabes o que fez meu pai? Encerrou o meu bem-amado no subterrâneo dum castelo, para que ali morresse de fome e de frio!

— E depois?

— Depois... Depois... julguei morrer de dor. Então uns amigos de ambos conseguiram comprar uns guardas e todas as noites, em segredo, vinham buscar-me ao palácio e conduziam-me à presença do meu bem-amado. Levava-lhe então alguns alimentos e o calor da minha afeição sem limites. Casámos secretamente numa noite que não mais esquecerei, tais as peripécias de que se rodeou. Tudo parecia estar contra nós. Tudo!... Até o tempo! O vento zunia com impiedade. A chuva alagava os campos. Os trovões atordoavam as gentes. Dir-se-ia a noite do Juízo Final!

Calou-se, mais uma vez, a jovem dama. Depois continuou:

— Fomos felizes, apesar de tudo, durante cinco luas. Mas uma noite... alguém me denunciou, e os cavaleiros nossos amigos tiveram de fugir! Eu recolhi ao palácio... e ele... o meu bem-amado esposo... o meu bondoso e belo cavaleiro… foi degolado na prisão!

A dama curvou a cabeça. Lágrimas grossas inundavam-lhe o roslo. Beijou a testa do seu menino e murmurou:

— Já não tens pai. Mas tens ainda mãe e amigos! Amigos que não te deixarão cair nas mãos do rei! Ficas sem pátria... Outra tomarás como tua!

Calou-se de novo a dama loira. Chorava em silêncio. Por fim, retomou a narrativa interrompida.

— Alguns dias depois da morte do meu esposo, aquele que hoje comanda o nosso pequeno grupo e foi o mais sincero amigo do pai do meu filho, veio ter comigo. Disse-me que tinha um barco à minha espera, para se fazer ao mar com todos os que haviam sido os amigos dedicados do meu esposo. Queriam livrar da ira do rei o fruto do meu amor — o meu filho! — Não hesitei e parti com eles, levando no meu seio o único laço que me prendia à vida.

Novo silêncio que Alina cortou.

— Como conseguiste sofrer tudo isso... e viver ainda?

— É verdade. Hoje pasmo! Mas creio que é por ele que vivo. Por ele, pelo meu menino!

— E é tão lindo, o teu menino! Tão branco... tão branco... parece mesmo um grande senhor!

— E é! É o neto do rei da Dinamarca! E vive! Vive, graças aos meus amigos, que conseguiram trazer o barco até aqui. Graças ao Deus que o meu esposo adorava esse meigo Jesus de que ele falou até morrer! E graças ao teu povo, que nos recebeu com tanto carinho! Aqui viverá o meu filho; o meu Jauntzuria!

— Que nome lhe deste?

— Esse que ouviste:

Jauntzuria, que quer dizer «Senhor Branco».

Alina olhou enternecida o menino que dormia. E murmurou, quase numa oração:

— Que cresças para bem, Jauntzuria!

Lá fora, os homens continuavam expandindo o seu júbilo. E o Sol acolhedor acariciava-lhes as costas e os braços nus.

publicado por TERTÚLIA DOS ULTRAS às 14:42

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